domingo, 20 de outubro de 2013

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COVILHÃ:HOSPITAL COM DIFICULDADES NAS ESCALAS MÉDICAS

O hospital Pêro da Covilhã enfrenta dificuldades na elaboração de escalas médicas depois de 26 clínicos gerais e médicos de Medicina Geral e Familiar do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) Cova da Beira terem ficado legalmente impedidos de assegurar urgências hospitalares.

Em comunicado, o CHCB refere que uma dezena de médicos tinha contrato de exclusividade com o ACES Cova da Beira e os restantes, não estando em regime de exclusividade nos cuidados de saúde primários, asseguravam o serviço através de empresas.

A proibição de realizarem urgências hospitalares foi comunicada à Administração do Centro Hospitalar Cova da Beira (CHCB) no dia 8 de Agosto através de uma circular normativa emitida pela Administração Regional de Saúde do Centro, dando conta que os médicos deixariam de ter enquadramento legal para realizar trabalho nas urgências hospitalares devendo, por isso, cessar funções em Setembro.

Em menos de dois meses, o CHCB acelerou o processo de contratação de uma empresa de prestação de serviços médicos que garantisse mensalmente 1680 horas no serviço de urgência geral e pediátrica que deixariam de ter cobertura a partir de Outubro.

Perante o volume de horas solicitado, a empresa evidenciou dificuldades na colocação de médicos. O CHCB colmatou as insuficiências recorrendo a médicos da instituição para garantir a manutenção da qualidade assistencial do serviço.

A empresa foi contratada a partir de uma lista da Administração Central do Serviços de Saúde (ACSS), à qual o CHCB teve obrigatoriamente de recorrer estando, por isso, impossibilitado de escolher outras empresas, particularmente, aquelas que pertencem a médicos de família que prestaram serviço na urgência ao longo dos últimos anos.

Ao longo deste ano, o CHCB diz ter alertado os responsáveis ligados aos cuidados de saúde primários, em diversas ocasiões, para a vantagem de manter o modelo de organização usado ao longo das duas últimas décadas, disse Rosa Ballesteros, diretora clínica do CHCB.

A médica reconhece a existência de «vantagens económicas para o hospital na contratação dos médicos através da empresa» mas alertou para o fato de serem «tarefeiros, nem sempre especializados em medicina geral e familiar» e para «a ausência de relação prévia com o hospital e com a população da região».

Rosa Ballesteros espera que o protocolo possa ser retomado para «dar continuidade a uma longa colaboração que permitiu um óptimo atendimento a doentes em situação de urgência», até porque «temos conhecimento do interesse dos médicos em prosseguir a colaboração».

O Hospital Pêro da Covilhã, integra o Centro Hospitalar Cova da Beira, atendendo anualmente perto de 120.000 doentes urgentes nos serviços de Urgência Geral e Pediátrica (onde Clínicos Gerais e Médicos de Medicina Geral e Familiar prestavam serviço) e Obstétrica (assegurada por médicos especialistas).

Os médicos de família são médicos de primeiro atendimento que observam os utentes antes de serem encaminhados para especialistas hospitalares nos serviços de urgência

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Nasceu em Castelo Branco, licenciou-se Medicina no Porto, salta de para-quedas nas Moitas e reúne com a família em Cernache do Bonjardim. Luis Cobrado é doutor em Medicina desde maio mas continuou a investigação.

In 'Reconquista'

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A Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) da Guarda continua a ter períodos em que está inoperacional por falta de médico. Em média, a VMER está inop dois períodos por semana. O modelo de funcionamento da VMER poderá ser alterado nos próximos meses, nomeadamente com a integração da viatura no serviço de Urgências do hospital da Guarda, o que poderá permitir a operacionalidade 24 horas por dia.

In «Terras da Beira»



sábado, 19 de outubro de 2013

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Professora Lucinda Pires
In «O Teixo», Escola Básica 2,3 - Teixoso
23 de Outubro de 1997, seis dias depois da morte da Lucinda


Há pessoas que, quer se goste delas ou não, não são indiferentes a ninguém. Com a sua força interior, alegria, dinamismo, frontalidade e capacidade de trabalho, derrubam montanhas, se necessário. A professora Lucinda Pires era assim. 
A sua vida era uma contínua procura de objectivos. Havia sempre novos projectos a desenvolver. Só sabia viver assim. De outra forma, não faria sentido. E, por todas estas razões, quem trabalhava com ela sabia que, volta e meia, lá aparecia um novo projecto, uma nova aposta. Porém, nos últimos tempos, andava cansada e por vezes chegava a dizer: «Este ano, quero descansar». Evidentemente, ninguém acreditava nisso. Descansar, a Lucinda? Isso não era para uma mulher daquela envergadura. Mas por que motivo andaria tão cansada? Claro que os projectos ambiciosos que dinamizava exigiam, da parte dela, um grande esforço e entrega. Contudo, o que verdadeiramente a fragilizava era a capacidade que tinha de «carregar» os problemas dos que a rodeavam. As dores daqueles que lhe estavam próximos eram também as suas. E isso cansa, dói, incomoda. Há alguns meses que a Lucinda ajudava a suportar as dores, doenças e perdas de amigos. Alguns deles partiram também, sem ela contar. Inesperadamente, a Lucinda partiu. Deixa-nos uma profunda saudade. 
Percebemos agora melhor o seu estado de espírito, quando nos dizia que lhe custava muito perder amigos, quando ainda tinham muito para viver. Também a nós nos custa agora. Ficará para sempre um vazio, uma insatisfação, uma sensação de que tanto ficou por dizer e por viver… Mas ficam muitas e boas lembranças de momentos de alegria, de festa, de partilha, de boa disposição, de entrega, do saber conviver com todos, desde os mais cultos aos mais simples. Só alguém humilde e generoso consegue ser assim. Fica certamente na memória de todos o seu sorriso, o seu optimismo, a sua vontade de seguir em frente. Sempre. Oxalá tenhamos todos percebido, no tempo em que convivemos com a professora Lucinda, o que de facto é importante na vida. Assim saibamos, na nossa comunidade escolar, continuar em frente, com a mesma energia, sentido de união e empenho a que nos habituou.
Até sempre, Lucinda.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

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Casteleiro
A Serra da Pena é uma cópia?

Primeiro ponto: a Serra da Pena não é na Freguesia do Casteleiro, mas as ligações visuais e pessoais ao Casteleiro são imensas. Segundo ponto: o tema desta crónica de hoje é uma especulação minha. Nunca li isto em lado nenhum. Nunca falei sobre isto nem escrevi. Nunca pus isto à discussão de nenhum arquitecto ou sequer engenheiro… Mas acho que o leitor me vai dar razão.
E essa tese é muito simples e espero demonstrá-la nesta «crónica»: acho que o Hotel da Serra da Pena, inaugurado em 1926 foi inspirado em termos de «design» no Monumento Nacional Centum Cellae, em Belmonte, ao pé de Gonçalo – mais propriamente no Colmeal da Torre. Vou mais longe. Acho que foi uma cópia.
Mas já lá vamos.
Agora, cumpre sugerir ao leitor que leia a edição desta semana do «Serra d’ Opa». Para tanto, abra o link, aqui.


  
















Como já contei há dois anos e tal no «Capeia», quando era muito pequeno, em meados dos anos 50, ia muitas vezes ao que então ainda se chamava Hotel das Águas Radium – dizendo de forma mais rápida: o hotel da Serra da Pena.
Até há muito pouco tempo, sempre pensei que aquilo era território do Casteleiro. Por muitas razões: as pessoas que viviam ali nos arrabaldes do hotel corriam era para o Casteleiro e não para Sortelha, sua freguesia; lá vivia até a família do Professor Neves e esposa, a D. Nazaré, professores do Casteleiro durante anos – e isso aumentava quer os relacionamentos quer a minha natural «certeza» de que aquilo era gente do Casteleiro – nem outra coisa me passaria pela cabeça…; e, por fim, recordo que, mesmo sabendo agora como sei que se trata de duas freguesias, sabemos também que, durante séculos (até 1855, mais propriamente), Sortelha foi sede de concelho e o Casteleiro foi uma freguesia desse concelho – o que certamente aumentava a coesão da Serra da Pena à minha aldeia, mesmo aqui pertinho. Mas há mais e mais interessante: o correio das pessoas da Serra da pena ia para o posto dos Correios que nos anos 50 e 60 havia no Casteleiro. Finalmente, e não menos importante: é muito mais perto da Serra da Pena ao Casteleiro do que a Sortelha…
Posto tudo isto, que justifica que trate desse assunto em peça sobre a minha terra, vou então expor a minha visão do assunto que aqui me traz hoje: o Hotel é uma cópia descarada da arquitectura ou pelo menos do conceito arquitectónico da Vila Romana do Centum Cellas ou Cellae. Agradeço a clareza fotográfica manifestada nos blogues «Dokatano», «Afonso Loureiro», «Ruinarte»  e «Lugares Esquecidos».

Notas informativas sobre cada uma das construções

Primeiro, algumas notas sobre a torre ainda existente, o que ainda resta, em Centum Cellas.
Sobre isso, por todas as enunciadas aqui, sigo a tese de Jorge de Alarcão de se tratar da sede de uma villa – quinta – romana, cujo proprietário se chamava Lúcio Cecílio. Note até que D. Sancho I, em 1188, atribuiu à aldeia ali existente carta de foral – aldeia chamada Centuncelli. O que significa que se tratava de um povoado com importância ou demográfica ou estratégica.
Mas note que a torre que resta é apenas parte do existente, que incluiria «salas, corredores, escadarias, caves e pátios».
Depois, alguma informação básica sobre a Serra da Pena: 
1 - O Hotel foi construído no início dos anos 20 do século XX e inaugurado em 1926. 
2 - O seu investidor foi um conde espanhol, Don Rodrigo. 
3 -  Tratava-se afinal de umas termas à base de água e lamas radioactivas. 
Se tiver interesse, leia uma peça anterior que escrevi sobre o assunto aqui mesmo, no «Capeia».

Fazendo as comparações certas, conclui-se…

Puxo então a brasa à minha sardinha. Imagine a seguinte conversa entre Don Rodrigo e o seu amigo arquitecto, provavelmente também ele espanhol (imagine que se chamava Pedro):
- Don Pedro, o hotel que vamos construir tem de ser uma coisa muito bonita e rica.
- Pues, sin duda, Don Rodrigo. Vou estudar aqui a zona e ver a melhor forma de fazer uma construção imponente a meio da serra.
- Quero uma espécie de castelo, uma catedral da saúde, em honra da minha filha que aqui se curou com estas águas milagrosas.
- Assim será, Don Rodrigo.
E assim foi: Don Pedro percorreu as redondezas, viu bem o Castelo de Sortelha mas achou que era demais. Um dia passou na estrada de terra batida ali para os lados de Belmonte e viu ao longe… o Centum Cellas. Viu e desenhou-o, se calhar, para se inspirar sem dar demais nas vistas…
Mas deu!
Ficaram iguaizinhos os dois «templos».

Para começar: diga-me lá se não têm ambas as construções um ar entre o misterioso e o tétrico – mas diga se não são ambas fatalmente atraentes?
Eu acho que sim.

Saliento de seguida as comparações que desde há algum tempo me têm vidrado nesta tese de se tratar de uma cópia. São oito argumentos imbatíveis - o que me parece:
1º - aspecto geral: as fotos demonstram como as duas peças arquitectónicas têm traços semelhantes;
2º - implantação em local amplo: de longe, parecem construções siamesas que se impõem na paisagem em que cada uma se incrusta – em descampado num caso; em meia encosta no outro, mas ambas isoladas e dominadoras; 
3º - padrão militar. A Serra da Pena tem algo de arquitectura militar, não tem? Não sente isso? A torre de Centum Cellas tinha essa finalidade, de certeza absoluta;
4º - torre e torreão principal: segundo leio, o Monumento do Colmeal é a parte que resta de um conjunto mais amplo e seria a torre de vigia e de defesa; pois bem: a «torre» principal da Serra da Pena parece mesmo dela copiada;
5º - aspectos interiores: quando se entra numa e na outra, é impossível resistir à tentação de comparar o granito, as linhas esguias e altas, as janelas em série a meia parede e até as ameias, bem lá em cima nos dois casos:
6º - ar imponente de ambas as construções, relativamente ao ambiente rural em que cada uma delas se insere;
7º - ambas as construções aparecem ligadas a exploração de produtos da Natureza de carácter excepcionalmente valioso: por um lado, os metais valiosos como o estanho, no caso de Centum Cellas; por outro, as águas radioactivas cujo poder curativo começava a ser descoberto na altura da construção do Hotel da Serra da Pena (anos 20 do século passado);
8º - aspecto exterior geral de castelo. O Povo da minha terra até falava do «castelo da Serra da Pena». Quando se chega perto e se entra nas ruínas do Colmeal tem-se essa mesmíssima impressão de estar a entrar num castelo semi-destruído.
Ou seja: fazendo as comparações certas, há aqui muita coisa em comum entre as duas construções. Tantas semelhanças que até parece impossível que nunca ninguém que eu saiba o tenha escrito. E tão óbvias que, ainda estando eu a meio desta escrita, já estava a dar por mal empregue o esforço… pois o que é claro não precisa de aclaração – não é?   

Comparação de alguns pormenores arquitectónicos

Pacientemente, para esclarecer o meu ponto e para interessar o leitor, dei-me ao trabalho esta semana de fazer alguns recortes de pormenores que possam ser comparados. O leitor merece esse esforço e a minha tese ficará assim mais ilustrada.
Eis o que me parece (olhe atentamente para as fotos numeradas e tire também as suas conclusões):



Foto 3 – Ao longe, e largada na paisagem, a construção das Águas Radium parece uma imagem de espelho da Torre do Colmeal: repare bem. 



Foto 4 – Esta pequena parcela da Serra da Pena tem ainda mais semelhanças com a parte inferior do Cellas: as janelas, os três andares baixos, as aberturas no «rés-do-chão». Compare com a foto 2.



Foto 5 – Compare com a foto 1: a imponência e a dominância de uma construção e da outra são paralelas e evidentes. Quem criou o Hotel Termal das Águas Radium quis colocar uma marca no meio da Serra da Pena, tal como Lúcio Cecílio, seguramente, quis afirmar o poderio romano que lhe permitia negociar os metais com valor comercial que se exploravam na zona do Colmeal da Torre do seu tempo…   

E agora? Fica convencido? Ainda bem.

Infelizmente, não consegui saber o nome do arquitecto autor do projecto do Hotel das Águas Radium. Sobre o Centum Cellas, não me custa a acreditar que fosse construído a olho por algum especialista muito vivido em construções deste tipo e que fosse da inteira confiança de Lúcio Cecílio. Qual projecto, qual quê? Pois se no Casteleiro, nos anos 60, o meu avô e todos os Catanas da sua família construíam sem projecto e ficou como ficou… como vou pensar que no século I depois de Cristo fosse diferente?!
As normas de construção, sabemos que foram as de Vitrúvio. Mas quem terá dirigido a sua implantação concreta neste local concreto? Mistério!
Isso ficará como desafio para outros interessados na investigação. A semente fica aí, lançada à terra da curiosidade intelectual.

Uma coisa é certa: se não copiou e se não se inspirou na torre do Colmeal, o autor do projecto do Hotel da Serra da Pena ficou a devê-lo à evidência…  

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

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Nota prévia
Esta peça foi preparada para o «Capeia Arraiana», onde pode ser consultada também.

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ENTREVISTA

António Marques
Um criador de cães da Serra da Estrela


O cão «Serra da Estrela» é a estrela desta crónica. É uma peça um pouco longa, mas vale bem a pena. Não há muitos destes cães no Casteleiro. Mas há alguns – e é «nosso» um dos grandes criadores, António Reis Nunes, a residir agora na Quinta do Espinhal mas que se criou no Casteleiro, na Quinta de Santo Amaro, e é o Chanceler da Confraria. Além disso, é «nosso» o meu entrevistado de hoje, António Marques, o Presidente da nossa Junta de Freguesia, que é também um grande criador, grande entusiasta – e dirigente dos dois organismos que mais se empenham na promoção e defesa da raça «Serra da Estrela».
Esta entrevista e as fotos e filmes que aqui trago vão deliciar toda a gente – e não apenas os mais sensíveis à afectividade pujante deste animal…


O cão é um animal especialmente ligado ao ser humano e muito dedicado. Cresci com a Doninha até aos meus 18 anos, se bem me lembro. E o que me e nos custou a todos lá em casa quando morreu…
Há várias raças de cães genuinamente portuguesas. Por todas, cito: o rafeiro do Alentejo, o cão de água, o podengo, o cão de Castro Laboreiro… e tantas. Mas à cabeça, hoje, quero citar uma raça com muita classe e totalmente ligada à nossa zona: o Cão da Serra da Estrela. O «Serra» é o nosso cão. Ora, para salvaguarda do carácter genuíno e para promoção do «Serra» foi criada há três anos uma entidade especial: a Confraria do Cão da Serra da Estrela da qual António Marques é membro dirigente. Mais propriamente, é o Fiel-das-Usanças. A presidência da Direcção compete a António dos Reis Nunes – cujo cargo tem a designação de «Chanceler» e que morou no Casteleiro, na Quinta de Santo Amaro (conheço-o desde criança), sendo agora residente na Quinta do Espinhal, Rebelhos, Belmonte. Tudo aqui ao pé do Casteleiro, portanto.
 

Permitam-me uma nota que, sendo informação oficial, traduz a boa disposição com que estas coisas podem ser feitas. É que os membros da Direcção são designados como «Pastores», os da Assembleia Geral são a «Matilha» e os do Conselho Fiscal, como não podia deixar de ser, são os «Lobos». Isso só mostra o bom humor reinante… Veja aqui
O meu convidado de hoje para a apresentação da Confraria é um entusiasta da criação e da promoção do «nosso» cão. E é também, como sabemos, o Presidente reeleito da Junta de Freguesia do Casteleiro.


O que é um verdadeiro Cão da Serra da Estrela?


António Marques, meu caro Tó Zé, antes de mais – e vamos por partes – o que é um verdadeiro animal que se possa classificar como Cão da Serra da Estrela? Quais as principais características?
- O Cão da Serra da Estrela é, essencialmente, um cão de protecção de rebanhos, de guarda e companhia. Existe na variedade de pêlo curto e pêlo comprido. É um animal rústico, atento, calmo, expressivo, fiel e um excelente guarda do “seu” território. As características técnicas estão descritas no denominado “estalão da raça” que podem consultar no «site» do Clube Português de Canicultura, aqui.
No entanto, por curiosidade, deixo aqui uma descrição feita por Brás Garcia de Mascarenhas no seu poema épico “Viriato Trágico”, do cão de Viriato, que muitos sustentam ser a do nosso Serra. Um poema dirigido a D. João IV a implorar clemência, já que estava preso por desobediência. A prisão era a torre de menagem do Castelo do Sabugal, precisamente o concelho onde a Confraria tem a sua sede.


“Largo de espáduas, de olhos carrancudo,
Rasgada a boca, orelhas derrubadas,
Ventas negras, focinho cabeludo,
Beiços caídos, garras encrespadas,
Fornidos pés e mãos, corpo membrudo,
Seco de ancas, gordo de queixadas,
Curvas e dentes, rabo grosso,
Grosso e curto nos lombos e pescoço”

No Casteleiro há cães com essas características? Ou poderá vir a haver?
- No Casteleiro e no concelho do Sabugal existem alguns exemplares, muitos deles registados no Livro de Origens da Raça.

O «Serra» é meigo ou agressivo? Que outras características afectivas mostra?
- O Serra da Estrela é extremamente afectuoso. Dócil com o seu dono e desconfiado com estranhos!

Apresentam o animal como um elemento de divertimento e de trabalho. Referem-se ao trabalho de ajuda aos pastores sobretudo no passado ou querem referir outras utilidades do Cão Serra da Estrela especificamente?
- Como referi, é essencialmente um cão de protecção de rebanhos e de guarda embora possa também ser utilizado como animal de tracção.


Preservar a raça do «Serra»

Há vantagens em preservar a raça apurada e certificada de um animal deste tipo?
- A única forma de preservar, hoje e no futuro, as características da raça, é manter exemplares devidamente registados no Livro de Origens, existente no Clube Português de Canicultura.

E o que se pode e deve fazer para isso?
- Essa é essencialmente a missão de todos os criadores reconhecidos bem como das duas associações da raça existentes em Portugal: A Associação Portuguesa do Cão da Serra da Estrela (APSCE) e a Liga dos Criadores e Amigos do Cão da Serra da Estrela (LICRASE). Todos podem igualmente contribuir quando, ao adquirir um exemplar, optarem por escolher um criador credenciado. O CPC disponibiliza essa listagem gratuitamente.

Quantos animais há em registo e quantos além disso calculam que possa haver? Na nossa zona, no País todo – e no estrangeiro… têm esses dados?
- No final de 2012, considerando uma esperança média de vida de 8 anos, habitualmente utilizada para este tipo de raças, com base nos registos deverão existir cerca de 4400 exemplares. De pêlo comprido 3900 e de pêlo curto 500.


A Confraria e os seus encontros

Vocês, criadores, escolheram um modelo de associação muito específico: uma confraria. Primeiro, cabe perguntar: o que é uma confraria? O que é a Confraria do Cão da Serra da Estrela – melhor de criadores do cão?
- Os criadores estão reunidos nas duas associações que referi. A Confraria é uma associação de convergência de amigos, criadores, clubes, associações e outras entidades ou individualidades relacionadas com a raça, no intuito da sua valorização histórica, patrimonial, cultural, social e lúdica e não se assume como entidade representativa da raça, estando-lhe vedada essa função junto das entidades oficiais do sector.

Quem preside ou dirige os destinos da Confraria? Como se divulga e promove o cão e como tem corrido essa tarefa?
- Como referido, a Confraria é uma Associação. Tem sócios e estatutos e órgãos sociais eleitos. Temos procurado promover o Serra porque acreditamos que o futuro do Cão da Serra da Estrela passa também, e em muito, pela sua ampla divulgação junto dos mais variados públicos e fóruns e não apenas nos sempre importantes, mas limitados, concursos de beleza.
É nossa ambição e objectivo levar o Cão junto do maior número de pessoas.
Pelo simbolismo, mas essencialmente pelas oportunidades que o movimento confrádico possibilita em todo País e no estrangeiro, a Confraria pode ser um veículo poderoso de levar o cão da serra da estrela a ganhar espaços, a conquistar palcos e a trilhar caminhos nunca antes percorridos.
Uma Confraria é uma irmandade. A nossa confraria é, pois, uma irmandade virada ao futuro, em que o nosso “mais velho” é o CÃO.


Agora as explicações sem as quais ninguém se entende: Assembleia Geral, Capítulo, Grão-Mestre, entronização, oração de sapiência… Isso tudo é uma linguagem muito especial e fechada ou é uma «brincadeira» séria de amigos? 
- A linguagem está relacionada com a terminologia das remotas e seculares confrarias. O Capítulo não é mais que uma Assembleia. É nos Capítulos que são entronizados os novos confrades. Afinal, é uma cerimónia anual que reúne todos os membros. É um momento festivo, sério e de confraternização em que marcam presença delegações de muitas outras Confrarias existentes.

Fazem desfiles só aqui na zona ou também mais longe?
- A Confraria marca presença, sempre que possível, em eventos em todo o território nacional graças à disponibilidade dos confrades que residem em quase todas as zonas do país.

Vocês divertem-se nos vossos encontros, que são também convívios até com outras confrarias, ao que se percebe…
- Nomeadamente aquando da realização dos Capítulos, muitas outras confrarias marcam presença. A verdade é que a grande maioria das Confrarias são gastronómicas. Por isso, ou talvez não, terminamos sempre reunidos à volta de uma mesa…


Promoção do animal e da sua classe

Já estiveram presentes na Bolsa de Turismo de Lisboa por mais de uma vez. Isso significa também alguma forma de promoção também no estrangeiro?
- Existem diversos clubes da raça espalhados pelo mundo, nomeadamente nos países nórdicos, Reino Unido e EUA. O Cão da Serra da Estrela está hoje bem divulgado e é reconhecido internacionalmente.

A sede da Confraria é em Sortelha, uma das vossas madrinhas foi a Confraria do Bucho Raiano. Quer isso dizer que estão muito ligados ao Concelho do Sabugal? 
- De facto, as Confrarias Madrinhas são a Confraria do Bucho Raiano e a Confraria Queijo Serra da Estrela. Por um feliz conjunto de circunstâncias foi possível localizar a sede na bela aldeia de Sortelha. E está muito bem: no Concelho do Sabugal, virada para o solar da raça!

Qual o futuro da raça do Cão Serra da Estrela?
- O Serra da Estrela é o Cão mais belo do mundo. O seu futuro será, certamente, grandioso. Até porque, como Mark Twain escreveu um dia: “No céu entra-se por favor e não por mérito; se fosse por mérito, eu ficava à porta e o meu cão entrava”.


Notas
1 – Recordo que funciona também a Liga dos Criadores e Amigos do Cão da Serra da Estrela (ver aqui), com sede em Gouveia e de que o nosso entrevistado é vice-presidente.

2 –Se tiver interesse em ter acesso a pormenores sobre a raça, aconselho-o a ir beber aqui. E para ver um filme de uma ninhada que é uma ternura «em pessoa», clique aqui. E depois de verem a forma como os cãezinhos se amontoam em cima da dona a dar e a pedir mimos, digam-me lá se o «Serra» não é um grande companheiro, muito afectuoso, e digam-me se sim ou não têm razão os autores deste estudo, que encontrei referido aqui




quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Test

Os membros da Direcção são designados como «Pastores», os da Assembleia Geral são a «Matilha» e os do Conselho Fiscal, como não podia deixar de ser, são os «Lobos». Isso só mostra o bom humor reinante… Veja aqui
O meu convidado de hoje para a apresentação da Confraria é um entusiasta da criação e da promoção do «nosso» cão. E é também, como sabemos, o Presidente reeleito da Junta de Freguesia do Casteleiro.